Violência física doméstica e gestação: resultados de um inquérito no puerpério - IMIP (2001)

Telma Cursino Menezes, Melania Maria Ramos de Amorim, Luiz Carlos Santos, Aníbal Faúndes

Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP) - Mestrado em Saúde Materno-Infantil . Recife/PE

A íntegra do artigo pode ser acessada em Revista Brasileira de Ginecologia & Obstetrícia, v. 5, nº 5, p. 309-316, junho de 2003

RESUMO

Objetivos:

Determinar a prevalência de violência física doméstica sofrida por mulheres que tiveram o parto assistido em uma maternidade terciária do Nordeste do Brasil, estudar os principais fatores de risco associados e determinar os resultados perinatais.

Métodos:

Determinou-se a prevalência de violência física doméstica. Realizou-se análise estatística usando os testes

Realizou-se análise de regressão logística para cálculo do risco ajustado de violência física.

Realizou-se estudo descritivo, tipo corte transversal, incluindo 420 mulheres que tiveram o parto assistido em maternidade terciária no Recife (Brasil), com fetos pesando mais que 500 gramas. Todas estas foram submetidas a entrevistas com questões abertas e fechadas.χ2 de associação e exato de Fisher, considerando-se o nível de significância de 5%. A razão de prevalência foi determinada como medida do risco relativo de violência.

Resultados:

A prevalência de violência física doméstica foi de 13,1% (IC 95% = 10,1-16,6) e 7,4% (IC 95% = 5,2-10,2) antes e durante a gestação, respectivamente. O padrão de violência alterou-se durante a gravidez, tendo cessado em 43,6%, diminuído em 27,3% e aumentado em 11% dos casos. Depois da análise multivariada, as variáveis que persistiram fortemente associadas com violência foram baixa escolaridade e história familiar de violência da mulher, consumo de álcool e desemprego do parceiro. Entre os resultados perinatais, encontrou-se elevada freqüência de morte neonatal entre as vítimas de violência.

Conclusões:

Encontrou-se elevada prevalência de violência física doméstica (cerca de 13%) entre as mulheres que tiveram o parto assistido em maternidade terciária do Nordeste do Brasil. Os principais fatores de risco associados foram baixa escolaridade e história de violência na família da mulher, consumo de álcool e desemprego dos parceiros. A mortalidade neonatal foi elevada entre as vítimas de violência.

Introdução

De acordo com a OMS, a violência representa problema de saúde pública de graves dimensões, amplamente disseminado em todos os países do mundo. Nessa óptica, a violência contra a mulher

Sob a epígrafe "violência contra a mulher" encontra-se um leque de situações as mais diversas, incluindo tanto violência física como sexual e emocional. A definição da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1993, reconhece como violência contra a mulher .qualquer ato de violência de gênero que resulte, ou tenha probabilidade de resultar, em prejuízo físico, sexual ou psicológico, ou ainda sofrimento para as mulheres,

O termo violência doméstica tem sido utilizado para se referir a todas as formas de violência praticada no ambiente familiar

Presente na maioria das sociedades, a violência praticada pelo parceiro íntimo constitui a forma mais endêmica de violência contra a mulher

Segundo estimativas do Banco Mundial, uma mulher tem maior probabilidade de ser espancada, violada ou assassinada pelo seu parceiro atual ou anterior que por um estranho

A real extensão da violência doméstica é ainda difícil de ser averiguada, em razão de variações metodológicas quanto à definição de violência, tamanho amostral e metodologia de inquérito

Além disso, os profissionais de saúde não estão em geral habilitados para diagnosticar a presença de violência doméstica, e dificilmente irão introduzir perguntas sobre o assunto durante a anamnese. No estudo de Rodriguez et al.

Estima-se que 20 a 30% de todas as mulheres americanas tenham sido vítimas de violência por um parceiro íntimo ao longo de suas vidas

Embora não sejam dados conclusivos, estudos apontam a gravidez como fator de risco para a violência doméstica

Diversos danos à saúde podem resultar da VD, variando desde queixas ginecológicas e da esfera sexual

Por outro lado, as gestantes submetidas a violência doméstica podem também ser vítimas de homicídio. Na verdade, o trauma representa causa importante de morte materna em diversos países, sendo 36 a 63% destas mortes representadas por homicídios, a maioria dos quais praticados pelos parceiros íntimos

Quaisquer medidas de intervenção voltadas para esse problema exigem, como primeiro passo, a identificação das vítimas e, em segundo lugar, a compreensão dos possíveis fatores de risco associados.

No Centro de Atenção à Mulher do Instituto Materno-Infantil de Pernambuco, a investigação de violência não faz parte do protocolo de assistência pré-natal e há necessidade de se conhecer a situação da violência contra as mulheres que recebem assistência na instituição e suas repercussões em alguns parâmetros do bem-estar materno e neonatal. A identificação das condições em que a violência ocorre, suas características e repercussões permitirá ações que promovam sua prevenção e minimização dos agravos.

O presente estudo teve por objetivo determinar a prevalência de violência doméstica e os principais fatores de risco associados em mulheres que receberam assistência ao parto em uma maternidade terciária no Nordeste do Brasil, avaliando ainda os resultados perinatais.

Assume especial relevância, estimando-se que pelo menos um quinto da população feminina mundial tenha já sofrido violência física ou sexual em algum momento de suas vidas1.incluindo também a ameaça de praticar tais atos, a coerção e a privação da liberdade, ocorrendo tanto em público como na vida privada.1.2, porém reflete, geralmente, a violência contra a mulher perpetrada por seu parceiro íntimo3.1,4, no entanto não é reconhecida como forma de violência, sendo muitas vezes aceita como fenômeno cultural1, fazendo parte dos costumes e normas da sociedade que entendem e aceitam a violência exercida contra mulheres como forma de ação disciplinar exercida sobre esposas e filhas5.1,5.6,7.8, apenas 9 a 11% dos médicos investigaram sobre VD em pacientes procurando serviços de assistência primária à saúde8.9 e que cerca de três quartos das mulheres americanas que sofreram agressão foram vítimas de seus parceiros10.5, podendo esta ter início depois da gestação ou alterar o padrão quanto à freqüência e gravidade neste período11. Estudos de revisão sobre prevalência de VD na gravidez indicam uma estimativa de 0,9 a 20,1%12-14, referindo a maioria dos estudos taxas entre 3,9 e 8,3% entre mulheres grávidas investigadas15,16.17 até conseqüências obstétricas diversas como gestações indesejadas15, retardo em iniciar o pré-natal15,18,19, abortamento e natimortalidade20, baixo peso ao nascer19, trabalho de parto prematuro e perdas fetais21,22. Também podem estar presentes dor pélvica crônica, cefaléia, doença espástica dos cólons23, depressão, tentativa de suicídio e síndrome de estresse póstraumático1, ansiedade e uso de drogas5.24.

Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP) - Mestrado em Saúde Materno-Infantil . Recife/PE
Correspondência:
Melania Maria Ramos de Amorim
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